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15 agosto 2025

Entrevista exclusiva com o Doutor Aluizio Alves Filho

Publicação de uma entrevista que recebemos do blogue Acrópole, com o Professor Aluizio Alves Filho (1942-2025), um dos principais estudiosos da obra de Monteiro Lobato.  

Nesta entrevista exclusiva, o blog "Acrópole - História & Educação" traz uma conversa com o professor e cientista político Doutor Aluizio Alves Filho sobre a polêmica questão do racismo na obra de Monteiro Lobato.

Professor Aluizio atuou em todos os níveis de Ensino, lecionou na UFRJ e na PUC-Rio. Possui doutorado pela UNB. É autor de, entre outros, "As metamorfoses do Jeca Tatu: a questão da identidade do brasileiro em Monteiro Lobato" (2003).


Estudioso da obra de Lobato, o professor Aluizio tece considerações relevantes sobre a polêmica que envolve o criador do "Sítio do Picapau Amarelo". Confira!

AC – Professor Aluizio, alguns intelectuais têm restrições a Monteiro Lobato devido à presença de elementos racistas em alguns de seus livros. Que considerações faz a respeito?

AL – Todas as perguntas que Acrópole me faz nesta entrevista estão muito bem formuladas, sendo bastante difíceis de respondê-las nos limites inerentes a uma entrevista em função da complexidade que possuem. São perguntas que têm por denominador comum o debate em torno do pretenso racismo de Monteiro Lobato, questão que   merece uma análise acurada. Inclusive, estou escrevendo um livro sobre o assunto, mas, no momento, respondendo, faço as seguintes considerações, na esperança de que gerem reflexões e motivem pesquisas a respeito.

As considerações que passo a fazer julgo necessárias para poder alicerçar uma resposta consistente não só sobre esta primeira pergunta, mas sobre as quatro. As considerações são referentes à necessidade de situar no tempo a produção de José Bento Monteiro Lobato, nascido em Taubaté em 1882 e falecido na cidade de São Paulo em 1948.

Dito isto, observo que as obras completas de Monteiro Lobato têm várias edições da Brasilense, sendo a última composta por trinta e quatro volumes. São dezessete da literatura adulta e dezessete de literatura infantil, possuindo no conjunto cerca de dez mil páginas. A obra literária adulta é composta por livros com temas variados, entre contos, crônicas, um romance, política, memórias e correspondências. A literatura infantil de Monteiro Lobato, como é bem sabido, conta histórias da turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo, histórias que encantaram gerações.      

Monteiro Lobato tornou-se nacionalmente conhecido desde quando, em fins de 1914, publicou, com estrondosa repercussão positiva, os artigos “A Velha Praga” e “Urupês” no “Estado de São Paulo", na ocasião o mais lido e influente jornal brasileiro. Ao longo de sua trajetória pública, política, empresarial e literária, Monteiro Lobato colecionou sucessos, polêmicas, falências e uma prisão ocorrida durante o Estado Novo. Prisão por denunciar a ação de truste norte-americano que visava se assenhorar do petróleo brasileiro, que na ocasião ainda nem começara a jorrar no solo pátrio.

As obras completas de Monteiro Lobato contêm escritos do autor que começaram a ser conhecidos pelo grande público a partir da publicação dos seus citados artigos no jornal “O Estado de São Paulo” em 1914 até a publicação de seu último texto, Zé Brasil (1948). Este título é um panfleto onde saúda Luíz Carlos Prestes e apresenta o homem pobre do campo como uma vítima do coronel Tatuíra. Vale aqui observar que não conheço nenhum texto publicado durante a vida de Lobato que o critique, acusando-o de racista ou de eugenista. Se alguém conhece, solicito o favor de me informar.

Após o falecimento de Monteiro, seu renome e sua boa fama prosseguiram em alta e, em 1982, por ocasião do centenário do seu nascimento, os principais jornais e revistas do país publicaram páginas e mais páginas sobre o acontecimento. Outros meios de comunicação, como estações de rádio e de tevê, seguiram o mesmo caminho, fazendo matérias a respeito; em universidades, eventos e publicações acadêmicas.  Muitos livros sobre Monteiro Lobato vieram a lume em 1982. Os aplausos foram a tônica absolutamente dominante. As críticas, quando haviam, praticamente giravam em torno de um único assunto: o dito antimodernismo de Lobato, questão quase sempre mal discutida.  Questão que tem origem no artigo “Paranoia ou Mistificação?”, publicado originalmente no Estado de São Paulo, em 1917, onde Lobato desanca a exposição da pintora Anita Malfatti, que viria a ser a musa da Semana de Arte Moderna, em 1922.

Em suma, Monteiro Lobato, que estreou no mundo das letras em 1914 e atravessou o século vinte como nome consagrado no campo literário, admirado e respeitado pelas forças progressistas do Brasil por suas tomadas de posição em defesa de causas nacionais, como a saúde pública, a indústria do livro, a educação e o petróleo, nunca foi atacado pelo seu hoje dito e alardeado racismo e eugenismo, coisa que passou a ocorrer com intensidade cada vez maior a partir de 2010.  Sem dúvida, é aqui que reside o xis da questão.

Ocorreu algo em 2010, que comentaremos na continuidade da entrevista, algo que funcionou como gota d’água, provocando radicais mudança nas avaliações, não só da obra, mas da própria imagem de Monteiro Lobato. Ele, que até então era entendido e saudado não só pela qualidade da sua literatura, mas como membro da vanguarda das lutas sociais do povo brasileiro, de repente (2010), passou a ter sua obra desqualificada e sua memória aviltada, dito, por alguns “intelectuais”, tratar-se de mero racista. De que argumentos se valem os que fazem tal desqualificação? Que suporte metodológico os detratores de Monteiro Lobato apresentam e se apoiam? O que de fato ocorreu?  Será que gerações de intelectuais, entre os quais se encontram muitos nomes de primeira grandeza da cultura brasileira, como são Lima Barreto, Oswald de Andrade, Erico Veríssimo, Clarice Lispector, Anísio Teixeira   e Caio Prado Junior, que escreveram altos e invulgares elogios a Monteiro Lobato, não sabiam o que estavam dizendo?  Será que alguém acredita que os citados eram ingênuos ou mal informados?

Postulo que vale a pena, para melhor pensar a cultura brasileira, que se examine e reflita sobre o conjunto de questões ligadas ao fato de o panteão Monteiro Lobato, de repente, ameaçar desabar. No mais, quero deixar claro que os comentários e observações que nesta entrevista faço devem ser entendidos como uma pequena peça de um grande quebra-cabeça em que estou mergulhado na tentativa de ajudar a tentar resolver.         

   

AC – Como avalia a questão racial em Monteiro Lobato e a polêmica a respeito?

AL -   Esta é a pergunta central da presente entrevista. Pergunta   sobre a qual repousa a anterior e também as duas subsequentes, pergunta complexa que, penso, não pode ser respondida com um simples sim ou não, ou seja: sim, Monteiro Lobato era racista, ou não, Monteiro Lobato não era racista.  Mas a considerar pelo que tenho visto, é assim que têm procedido muitos leitores de orelhas de livros que entram no debate a respeito da questão racial em Monteiro Lobato, dando palpites. Vivemos numa época em que, por incrível que pareça, autoridades educacionais desmerecem quem estuda e produz, incentivando que se estude pouco e se palpite muito.

Produto de muita leitura e releituras que tenho da obra de Monteiro Lobato e de outros autores brasileiros, leitura e releituras feitas ao longo de décadas como professor universitário, quando passei lecionando, pesquisando, participando de eventos e escrevendo sobre pensamento social e político brasileiro, creio que adquiri um bom cabedal a respeito para dizer algo bem fundamentado sobre a polêmica e a questão racial em Lobato.

A conclusão mais estrutural a que chego é que esta polêmica, nascida em 2010, quando a notícia que o Conselho Nacional de Educação (CNE) havia determinado que o livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, por conter elementos considerados como racistas, não fosse mais distribuído nas escolas públicas, ganhou espaço no noticiário dos principais diários do país. A biografia de Monteiro Lobato começou a passar em grande escala por fantásticas manipulações que a deformam inteiramente e de tal forma que não há paralelo com algo ocorrido com nenhum outro autor brasileiro.

Observo que o formato entrevista não contém espaço apropriado e necessário para tratar com profundidade a questão em tela pelas nuances e detalhes que possui. Entrevista é um espaço ideal para chamar a atenção para problemas determinados e é isso que estou aqui procurando fazer e tratar a questão de maneira adequada, como já disse, em estudo minucioso no livro sobre Lobato que estou escrevendo.

AC – A obra de Monteiro Lobato deve ser banida como querem alguns ou adaptada para as escolas de educação básica?

AL - Não sou a favor de uma coisa nem da outra. Não sou a favor de proibi-la nem de castrá-la, via “adaptações”. Quem teria legitimidade para “adaptá-la”? Adaptá-la segundo quais critérios e princípios?  Autorizado por quem? Sou contra censura, pois não combina com liberdade e democracia. A intervenção do estado na cultura, na educação, nas artes e na ciência é sempre desastrosa. Nós, brasileiros, conhecemos bem isso e temos péssimas lembranças a respeito. Quanto à proibição das obras de Monteiro Lobato, não é a primeira vez. Durante o Estado Novo, seus livros foram retiradas de bibliotecas públicas e, acusados de “comunismo”, queimados.

Ao exposto, acrescento que, quando digo que sou radicalmente contra censura, não quero dizer que seja contra que haja seleção de livros para uso nas escolas de educação básica, pois é claro que isto é absolutamente necessário. Entretanto, nada sei dizer a respeito, pois os critérios de tal seleção me parecem uma verdadeira caixa preta onde interesses políticos, econômicos e ideológicos têm mais peso que os didáticos, e os professores não são ouvidos.


AC – Em sua opinião, Monteiro Lobato foi um autor reacionário ou progressista? O que se pode concluir a respeito de seu legado para a cultura nacional?


AL – A respeito, posso dizer o seguinte: não conheço nenhum movimento entendido como reacionário, como por exemplo o integralismo, que evoque Monteiro Lobato entre os seus adeptos. Sobre o seu legado para a cultura nacional,  concluo citando as seguintes expressivas palavras do poeta Carlos Drummond de Andrade, pois dão muito o que pensar: “A lição maior de Lobato é a sua própria e tumultuosa riqueza  humana. Creio mesmo que dentro de vinte anos ele estará incluído  nos manuais de história e cultuado na memória do povo como uma espécie de herói civil da literatura”. 


Leia também o artigo "O racismo em Monteiro Lobato, segundo leituras de afogadilho" (2016).


23 junho 2025

Entrevista: Mary del Priore

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Confira, a seguir, uma entrevista para lá de especial com a Historiadora e autora best-seller, Dra. Mary del Priore concedida ao blogue Acrópole.


AC - Professora Mary, você é uma das referências mais importantes para os estudos sobre História do Brasil. Poderia nos contar como surgiu sua paixão pela pesquisa histórica e um pouco de sua trajetória acadêmica e profissional?

Mary del Priore - A história entrou em mim através dos livros. Eu não estudava, lia. Criança solitária e semi-interna no Colégio Sion, comecei a ler muito cedo, sobretudo a literatura infanto-juvenil que misturava aventuras e viagens. Viajar no tempo se tornou uma mania, um hábito, um prazer. No colégio, a única matéria em que me destacava era História. Como muitas mulheres da minha geração, logo abandonei a faculdade para me casar. Só pude voltar depois de três filhos. Aliás, cresci, estudando com eles. Passei no vestibular da PUC/SP onde tive excelentes professores, mas sob o império dos estudos marxistas. Eu frequentava a Livraria Francesa, no centro de SP, onde adquiria livros de historiadores das mentalidades que estavam revolucionando o fazer-história. Eu queria fazer “outra história” e não a que ouvia na faculdade. Por isso, optei pelos pós na USP onde tive a sorte de ter excelente orientadora: Maria Luiza Marcilio. Logo no primeiro ano, ganhei um concurso da OEA para um curso na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris. A experiência me tornou ainda mais determinada a buscar meus próprios caminhos, sem entrar em caixinhas ideológicas. Passei em 1º. lugar num concurso para História do Brasil Colônia e durante 12 anos lecionei na História da FFLCH/USP. Adorava os alunos, mas sentia que a burocracia me sufocava. Deixei a USP com um projeto: fazer história para todos. Os prêmios se sucederam. Recebi mais de vinte, inclusive quatro Jabutis por livros que nunca teria escrito numa trajetória acadêmica. Afinal, estava fazendo o que queria: história com prazer. Ao mudar para o Rio, lecionei brevemente na PUC e na Universidade Salgado de Oliveira. Sim, sinto falta de alunos e colegas com quem sempre renovei meu aprendizado. Mas compenso na companhia de protagonistas de outrora, homens e mulheres do passado, que seguem me dando lições.


AC - Quais autores e obras lhe exerceram maior fascínio? 

Mary del Priore - Indiscutivelmente Gilberto Freyre e seus três clássicos, Casa Grande e SenzalaSobrados e MucambosOrdem e Progresso. Na graduação da PUC, passamos anos em torno de dois ou três autores que explicavam o passado por meio do modo de produção. Que simplificação, que tédio. O passado é tão complexo, os arquivos brasileiros tão inéditos e ricos, o Brasil tão grande e suas realidades sociais tão diversas, como não ser arrebentada por uma prosa cheia de saber e alegria contida na escrita de GF? Ele falava de tudo que me interessava: vida cotidiana, sexualidade, cozinha, mestiçagem, trabalho, natureza, trocas culturais, enfim, relações humanas vivas. Aqueles eram livros escritos com o prazer que eu queria dar, desde então, a quem me lesse. O mais bizarro é que, na graduação da PUC, a patrulha ideológica, perseguia e lacrava quem lesse GF, o que o tornava tão mais proibido quanto atraente. Tínhamos um pequeno grupo de leitura e enfrentávamos com bom humor o climão pesado de alguns cursos. Leio sempre com renovado prazer a trilogia de GF. E antes que venha nova lacração, é sempre bom lembrar: ele nunca jamais falou em “democracia racial”.


AC - Quais são os maiores desafios que você enfrentou enquanto Historiadora? Considera que ainda falta reconhecimento e mais espaço no mercado para os profissionais da história? 

Mary del Priore - Confesso que tive muita sorte, pois, não basta ter talento ou paixão pelo oficio. É necessário que as condições de trabalho ajudem. Tudo me favoreceu. Nos anos 90, na USP, pude dar o curso que quisesse e tive alunos maravilhosos, hoje espalhados pelas federais e estaduais do Brasil. Era a época de cobrar produtividade dos professores e nada me alegrava mais do que escrever: livros, artigos, resenhas. Professores estrangeiros vinham para cá, centenas de clássicos eram traduzidos, e também muitos de nós puderam fazer pesquisas em Portugal, ou no meu caso, França. Os editores me encomendavam um livro atrás do outro. Uma geração se formou no melhor momento das Ciências Humanas. .

Hoje, sem dúvida falta espaço e reconhecimento para profissionais de história fora do próprio meio. Mas precisamos analisar o porquê. Eu diria que o isolamento dentro dos Departamentos e “a história do pequeno jardim”, como a denominou meu querido amigo Ronaldo Vainfas, deixaram passar na frente jornalistas e ficcionistas que escrevem sem enrolar a língua, como faz a maior parte dos acadêmicos. Há, porém, brechas para respirar. As efemérides são sempre ocasião de mostrar o trabalho de muitos, sem contar que a internet facilitou a divulgação de pesquisas, artigos e teses. Mas no cômputo geral, são pouquíssimos os historiadores presentes na vida pública. A sua falta de visibilidade incentiva a apropriação da História por outros atores da cultura: diretores de cinema e novelas, influencers e pseudo-professores fakes na Internet. Daí a importância da dita “história pública”, cujo objetivo é o de valorizar o próprio ofício ou os colegas.

Mas também ocorreram problemas em nível teórico. Entre os anos 80 e 90, as Ciências Humanas entraram numa crise teórica e política. Numa espécie de revanche, a teoria da desconstrução cancelou o estruturalismo. Vários teóricos passaram a desqualificar a significação do discurso cientifico e sua capacidade de ter um sentido objetivo. Nos tornamos ciências puramente interpretativas. No século XXI, certa radicalidade identitária e a ideologia do cancelamento aceleraram a fragmentação de nosso oficio. Nesse quadro, a “uberização” de jovens historiadores doutores é visível. Desempregados ao final da pós-graduação, eles lutam para sobreviver com bicos e se esfalfam em trabalhos díspares, constituindo uma espécie de proletariado profissional sem grandes perspectivas.


AC - Vários de seus livros, como as publicações da tetatrologia "Histórias da gente brasileira", tornaram-se sucesso de venda. Num país onde a memória coletiva e a História são pouco valorizadas, como explica a grande demanda e procura pelos seus livros?


Mary del Priore - Explico: não são livros acadêmicos. Ao contrário. Meu leitor é gente comum, profissionais de outras áreas, amantes de História. Procurei ligar temas nascidos da farta produção historiográfica com assuntos que interessam à sociedade: trabalho, casamento e família, doença e morte, enfim, tudo o que ilustra e dá a ver o cotidiano de nossos antepassados. E procuro fazê-lo literalmente através de textos saborosos, que transportam o leitor a outros tempos, sem esmagar a narrativa com teorias e conceitos. A tetratologia Histórias da Gente Brasileira irá ao ar em julho no Canal History Channel com entrevistas com vários especialistas nossos conhecidos. A facilidade de leitura dos livros que escrevo me tornaram consultora de vários diretores de cinema, autora de obras institucionais ou palestrante em clubes, academias ou órgãos públicos. Não sou a única. Temos colegas que navegam entre o jornalismo e publicações como Jorge Caldeira e Eduardo Bueno. E outros ainda, como Christian Linch e Heloisa Starling que, em colaboração com meios de comunicação, nos explicam magnificamente como e porque o Brasil derivou para a extrema Direita. Ainda que o grosso da população desconheça ou não se interesse por história, ela é um produto cultural como outro qualquer. Como torna-lo atraente? Falando, não apenas PARA, mas COM o povo brasileiro.

AC - A reforma do Ensino Médio tem preocupado pesquisadores, professores universitários e docentes da educação básica devido à redução da carga horária de várias disciplinas, inclusive das Ciências Humanas e Sociais. Como a senhora vê o ensino de História na educação básica como um todo? Com a perda de espaço do ensino de História nas grades Curriculares, quais seriam os prejuízos para os jovens e a sociedade?

Mary del Priore - E a preocupação tem razão de ser. Todos sabemos que uma sociedade aberta e democrática, tem necessidade da reflexão que a História e as Ciências Humanas trazem. Temos recursos intelectuais para abrir o debate das questões de fundo, sem nos contentarmos com soluções cosméticas? Resposta: sim. Mas, essa disposição esbarra em questões que, sabemos, estruturais. A primeira delas é o compromisso da sociedade com a educação. Não se pode esperar que todas as soluções venham de cima, ou do Executivo seja lá quem o exerça. A aliança entre sociedade e educadores – como já mostrou o sociólogo Pierre Bourdieu – é essencial. Quantas vezes conseguimos colocar gente na rua, em passeatas por melhores condições de ensino, bibliotecas, respeito aos educadores? Se bem me lembro, ao final da Ditadura. Mas para pedir mais espaço para blocos de Carnaval, milhares acorrem. A família, seja monoparental, nuclear, etc., tem que se comprometer com o ideal da escolarização e letramento de seus filhos. E não basta levar até a porta da escola. É preciso valorizar por palavras e ações, seu comprometimento com a vida escolar. No caso da História, também. Valorizar o passado, os lugares de memoria da cidade onde se mora, criar projetos que valorizem os ancestrais, visitar museus e sobretudo, demonstrar respeito ao assunto é fundamental. As séries de tv e livros de história infanto-juvenil estão investindo, ainda que timidamente no filão. Acabei de fazer um livro com Mauricio de Souza onde virei personagem da Turma da Monica, contando sobre a Independência do Brasil. Vamos todos aproveitar a onda.

A segunda barreira me aparece mais difícil. Trata-se da revolução tecnológica em que estamos submergindo sem nos darmos conta. Quem não tem celular, hoje em dia? São 242 milhões de celulares inteligentes em uso no país, que tem pouco mais de 214 milhões de habitantes, de acordo com o IBGE. A pesquisa mostra ainda que, ao adicionar notebooks e tablets, os aparelhos resultam em 352 milhões de dispositivos portáteis, o equivalente a 1,6 por pessoa. De acordo com prognósticos de especialistas, o futuro de certa forma caótico e até mesmo catastrófico, é um cenário onde todas as inteligências artificiais vão interagir com dados de qualquer fonte em todo tipo de situação para criar novos conhecimentos. E ele foi escancarado pelo ChatGPT. Temos que parar de fingir que não vemos as Ciências Humanas perderem seu lugar frente à tecnologia. E começar a pensar em como interagir com as mudanças.

AC - Atualmente, a senhora está trabalhando em algum projeto editorial ou desenvolvendo novas pesquisas? Se possível, poderia falar um pouco sobre os projetos e novas obras que estão por vir?

Mary Del Priore - Esse ano pretendo me dedicar mais ao Clube da História, um canal no Youtube sem pretensões, mas que buscar promover os colegas que tem dificuldade de divulgação de seus trabalhos. Também, vou oferecer um curso sobre meu livro Histórias Íntimas que, depois de vender mais de cem mil exemplares será relançado em abril. Acredito que discutir a sexualidade dos brasileiros é importante, uma vez que as pautas morais estão na ordem do dia. No segundo semestre, será lançado Memórias de uma família imperial – os Bragança no exílio. Poucos conhecem o destino da princesa Isabel e seus filhos, depois do golpe republicano. Faço revelações inéditas sobre o cotidiano de uma família que, apesar de coroada, viveu suas tensões, dificuldades e perdas como quaisquer humanos mortais.

Apesar do cenário não ser luminoso, não desisto da História. Todos que amamos História temos que nos ajudar, nos escutar e dar as mãos para levar o melhor de nosso ofício para o maior número de pessoas.

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