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04 agosto 2026

[Lista de exercícios] Atividades sobre Memória e poder

Lista de exercícios com atividades de leitura e interpretação de textos sobre a relação entre a memória coletiva, patrimônio histórico e poder


1. Leia o texto a seguir depois responda as perguntas. 

"O Estado nacional surgiu, portanto, a partir da invenção de um conjunto de cidadãos que deveriam compartilhar uma língua e uma cultura, uma origem e um território. Para isso, foram necessárias políticas educacionais que difundissem, já entre as crianças, a ideia de pertencimento a uma nação. Os estudiosos modernos chamaram isso de introjeção ou doutrinação interior, que visava a imbuir o jovem, desde cedo, de sentimentos e conceitos que passavam a fazer parte de sua compreensão de mundo, como se tudo fosse dado pela própria natureza das coisas. Um sociólogo de nossa época,  o francês Pierre Bordieu, usou a palavra habitus para se referir a essa naturalização inconsciente que, no contexto dos Estados nacionais, depende de mecanismos de reprodução social, como a escola. Vários outros pensadores modernos, como Gilles Deleuze e Michel Foucault, ressaltaram o papel da escola na difusão e aceitação dos conceitos sociais. 

Os novos Estados nacionais tiveram como tarefa primeira inventar os cidadãos.  Em relação a isso, há uma frase famosa que vale a pena recordar. Logo após a unificação italiana,  em meados do século XIX, menos de 5% da população da Península Itálica falava ou entendia o italiano. O líder da unificação, Massimo D'Azeglio, constatou que "feita a Itália,  é preciso fazer os italianos". 

(FUNARI, P. P., PELEGRINI, S. C. A. Patrimônio histórico e cultural.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006, p. 16-7).

A) Qual o papel da escola no processo de construção da identidade nacional?

B) Apresente uma definição para o conceito de Estado Nacional. 

C) Explique o sentido da frase "feita a Itália, é preciso fazer os italianos".

2. Leia o trecho a seguir, depois responda as questões. 

"... a leitura do Times de 17 de março dava a impressão de que, num discurso proferido na véspera, o Grande Irmão previra que as coisas permaneceriam calmas no fronte do sul da Índia, mas que o norte da África em breve assistiria a uma ofensiva das forças eurasianas. Na verdade, porém, o alto-comando da Eurásia lançara uma ofensiva sobre o sul da Índia, deixando o norte da África em paz. Assim, era necessário reescrever um parágrafo do discurso do Grande Irmão, de forma a garantir que a previsão que ele havia feito estivesse de acordo com aquilo que realmente acontecera. Ou ainda: o Times de 19 de dezembro publicara as estimativas oficiais do volume a ser atingido na produção de uma série de bens de consumo no quarto trimestre de 1983, que ao mesmo tempo era o sexto trimestre do Nono Plano Trienal. A edição do Times daquele dia trazia a informação sobre o volume de produção efetivamente atingido no período, e os números estavam em franco desacordo com os prognósticos anunciados em dezembro. A tarefa de Winston era retificar os números originais, fazendo-os corresponder aos resultados de fato obtidos. Já a terceira mensagem fazia referência a um erro muito simples, cuja correção não demandaria mais que alguns minutos de trabalho. Em fevereiro último, o Ministério da Pujança fizera publicamente a promessa (no linguajar oficial: “assumira o compromisso categórico”) de não promover nenhum corte na ração de chocolate no decorrer de 1984. Na verdade, como Winston já sabia, no fim daquela semana a ração de chocolate seria reduzida de trinta para vinte gramas. Bastava substituir a promessa original pela advertência de que a ração de chocolate provavelmente sofreria uma redução em abril. Tão logo se desincumbiu das mensagens, Winston juntou com clipes as ditografias de suas correções às respectivas edições do Times e as introduziu no tubo pneumático. Em seguida, com um movimento que ele fez o possível para que parecesse inconsciente, amassou as mensagens originais e duas ou três anotações que ele próprio fizera e as atirou todas no buraco da memória para que fossem devoradas pelas chamas. Winston não sabia em detalhe o que acontecia no labirinto invisível a que os tubos pneumáticos conduziam, mas tinha uma visão geral da coisa. Depois de efetuadas todas as correções a que determinada edição do Times precisava ser submetida e uma vez procedida a inclusão de todas as emendas, a edição era reimpressa, o original era destruído e a cópia corrigida era arquivada no lugar da outra. Esse processo de alteração contínua valia não apenas para jornais como também para livros, periódicos, panfletos, cartazes, folhetos, filmes, trilhas sonoras, desenhos animados, fotos — enfim, para todo tipo de literatura ou documentação que pudesse vir a ter algum significado político ou ideológico".

ORWEL, George. 1984

A) Qual seria a finalidade do "processo de alteração contínua" descrito no texto?

B) Imagine que você vivesse num país com práticas semelhantes às citadas no texto. Como deveria ser a forma de governo deste lugar? Justifique sua resposta. 

C) "... amassou as mensagens originais e duas ou três anotações que ele próprio fizera e as atirou todas no buraco da memória para que fossem devoradas pelas chamas".

Podemos afirmar que os líderes desse país estavam preocupados com a memória coletiva? Justifique sua resposta.

3. A Unesco condenou a destruição da antiga capital assíria de Nimrod, no Iraque, pelo Estado Islâmico, com a agência da ONU considerando o ato como um crime de guerra. O grupo iniciou um processo de demolição em vários sítios arqueológicos em uma área reconhecida como um dos berços da civilização.

Unesco e especialistas condenam destruição de cidade assíria pelo Estado Islâmico. Disponivel em: http://oglobo.globo.com. Acesso em: 30 mar. 2015 (adaptado).

O tipo de atentado descrito no texto tem como consequência para as populações de países como o Iraque a desestruturação do(a)

A) homogeneidade cultural.
B) patrimônio histórico.
C) controle ocidental.
D) unidade étnica.
E) religião oficial.

4. Desde meados de 2015 que os noticiários virtuais têm estampados manchetes sobre as ações violentas do grupo jihadista Estado Islâmico (EI), na Síria e no Iraque. Recentemente, o EI explodiu um antigo templo, com cerca de 2 mil anos de idade, e colunas romanas com grande valor arqueológico em Palmira, na Síria.


O atentado mencionado no texto afeta qual aspecto da vida das populações do Oriente Médio? 

a) homogeneidade cultural.
b) patrimônio histórico.
c) controle ocidental.
d) unidade étnica.
e) religião oficial.

6. Leia o texto a seguir, depois responda as perguntas.

"Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de tudo, o meu voto é sim." 

(Voto do então deputado federal Jair Bolsonaro a favor do Impeachment da presidente Dilma Rousseff, 2016).

A) No voto do deputado pela abertura do impeachment há uma referência à memória. Pesquise e explique qual foi a intenção do parlamentar em seu discurso.

B) Leia o Preâmbulo e o artigo 5º,  inciso III, da Constituição Federal de 1988. Em que medida o discurso do deputado federal contraria os princípios estabelecidos pela Carta Magna de nosso país? 

15 julho 2026

Memória e poder

A memória é a capacidade que possuímos de armazenar certas informações que são adquiridas através de nossas experiências e do aprendizado. A memória é essencial para a vida do indivíduo e também possui uma função social muito importante para a coletividade. A memória coletiva tem estreita relação com a identidade dos povos e nações.


Nesse sentido, é a memória coletiva que nos interessa, sob a perspectiva das Ciências Humanas e Sociais.

Se esquecimentos ou perda de memória individual podem trazer problemas para uma pessoa, a falta de memória social pode provocar graves problemas na identidade coletiva de um povo. Um dos principais modos de se preservar a memória social é através da criação de arquivos históricos, onde os documentos são armazenados. Mas sempre há riscos de se perder tais registros, seja de forma involuntária, caso de acidentes, ou de modo premeditado, com a destruição deliberada de arquivos.

O incêndio no Museu Nacional,  no Rio de Janeiro, em 2018 destruiu Grande parte do acervo e do patrimônio histórico armazenado no edifício. 


Após a Revolução Francesa, no século XVIII, multiplicou-se o uso da memória coletiva como instrumento de governo. As datas nacionais passaram a ser celebradas com festas e comemorações oficiais, apoiadas por suportes como moedas, selos de correios, placas e a inauguração de monumentos com o intuito de recordar determinados acontecimentos políticos. Tais acontecimentos podem ser uma revolução, a chegada de um novo grupo ao poder, uma vitória ao fim de uma guerra etc. A ampliação do acesso à Educação será utilizada pelo Estado para construir a identidade nacional, por meio do culto aos símbolos e heróis nacionais, do ensino da língua comum etc.

Como a memória coletiva está ligada ao poder ela está sujeita a todo tipo de manipulação segundo os interesses do grupo social dominante.  Além disso, pode haver tensão e disputa entre os diferentes grupos pelo poder e pela dominação sobre a tradição e as recordações. Um caso emblemático de manipulação da memória é a adulteração de uma imagem fotográfica pelo regime Stalinista, na União Soviética. A fotografia que destacava o líder Lênin em um discurso no ano de 1917 foi alterada a fim de apagar a memória de Leon Trotsky, o qual disputou com Stálin a sucessão ao poder.

Trotsky está à direita, na fotografia original.

Stálin venceu e, como não admitia oposição a seu governo Totalitário, procurou apagar os registros de Trotsky. 

Trotsky foi removido da imagem.

Os focos de tensão pelas disputas de memória ocorrem frequentemente. No Brasil, por exemplo, observaremos dois casos recentes de conflito em torno da memória coletiva. Ambos ocorreram em 2021. O primeiro deles foi uma iniciativa da Prefeitura de Niterói, a qual fez uma consulta pública propondo substituir o nome da rua Coronel Moreira César para Rua Ator Paulo Gustavo. Noventa por cento (90,2%) votaram a favor da mudança. Mas por que alterar o nome da via pública? 
Defensores da mudança evocam o passado de Moreira César para justificar a substituição de seu nome. O Coronel que faleceu em 1897 durante uma batalha na Guerra de Canudos, tinha um histórico violento. Assassinou um jornalista com uma facada nas costas e reprimiu com violência os rebeldes que participaram da Revolta da Armada (1891-1894). Seu apelido era "corta-cabeças". O que você preferiria: se lembrar do ator ou de um militar sanguinário? A maioria votou que prefere a memória de Paulo Gustavo à preservação de uma homenagem ao Coronel "Corta-cabeças".

O último caso ocorreu em São Paulo, trata-se de um grupo que incendiou a estátua de Borba Gato. 


Os homens foram presos e responderão por associação criminosa, incêndio entre outros. Um dos responsáveis pelo ato alegou que pretendia abrir um debate público sobre a manutenção de uma estátua que homenageia um bandeirante que escravizava negros e índios. O ato, para alguns que consideram a homenagem indevida, é um protesto. Outros, contudo, acham que a ação é um crime sujeito às penalidades da lei. A situação é delicada, pois a estátua faz parte do patrimônio público, contudo exalta a memória de alguém que ganhava a vida escravizando e dizimando indígenas. A ação dos ativistas é um protesto legítimo ou deve ser tratada como um crime?

As disputas, conflitos e tensões pela memória continuarão a ocorrer. O historiador Jacques Le Goff nos lembra o quanto é importante a democratização da memória, essa missão é de todos, principalmente dos profissionais da história, da sociologia e do jornalismo que tem atuação constante neste campo.

Para Le Goff (1990) a

"... memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. Devemos trabalhar de forma a que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens" (pág. 478).


Bibliografia

LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas, SP Editora da UNICAMP, 1990. 

SILVA, K. V., SILVA, M. H. Dicionário de conceitos históricos. São Paulo : Contexto, 2005.

20 setembro 2025

O uso da História em prol da Guerra

O presidente russo Vladimir Putin participando das celebrações em Volvogrado.


Ao celebrar os 80 anos da vitória dos soviéticos contra os nazistas em Satlingrado, atual cidade de Volvogrado, o presidente da Rússia - Vladimir Putin - evocou em seu discurso o espírito dos heróis do passado. Relacionou a batalha de outrora com o conflito atual, travado entre a Federação russa e a vizinha Ucrânia. 

A justificativa que o líder russo apresentou à nação para invadir a Ucrânia foi a de combater grupos neonazistas, os quais vinham perseguindo e matando pessoas de origem russa no território ucraniano. 

O apelo à História serve muito bem aos interesses do presidente russo, o qual busca manter o povo unido em torno de uma causa comum: proteger a pátria dos inimigos estrangeiros, sejam os neonazistas ou os países Ocidentais, os quais Putin acusa de tentar destruir a Rússia. 

Nesse sentido, a narrativa busca sensibilizar e convencer a população russa a apoiar o seu líder, mesmo que isso custe grandes sacrifícios, tais como ver jovens sendo recrutados pelas forças armadas, sem garantias de retornar às suas casas, passar por certas privações materiais devido às sanções internacionais que afetam o comércio e a oferta de determinados produtos, dentre outras mudanças na rotina provocadas pelo esforço de guerra.

A História não possui um sentido pragmático, técnico ou prático como certas disciplinas. O saber histórico não fabrica e nem comercializa nenhuma mercadoria.  

Contudo, nenhum governo abre mão dos recursos possibilitados pelo uso e manipulação das informações históricas para controlar as massas e garantir o seu poder sobre elas.  Somente a História tem essa capacidade.
Não foi por acaso que o grande escritor inglês,  George Orwell, escreveu no seu livro clássico 1984 que: 

"Quem domina o passado domina o futuro; quem domina o presente domina o passado".

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