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04 agosto 2026

A criação do SPHAN na Era Vargas

Em 1930 uma revolução levou Getúlio Vargas ao poder. O grupo liderado por Vargas defendia a reforma da política e de vários aspectos da sociedade brasileira. A república dos coronéis estava chegando ao fim.


Para suprimir o poder dos mandões  locais, Vargas apostou num Estado forte, centralizado e autoritário. Nesse sentido, o presidente do Brasil contou com o apoio de diversos intelectuais, artistas e homens de letras os quais tornaram-se membros do governo, atuando junto aos ministérios ou como técnicos de órgãos estatais.

O Estado sob Getúlio Vargas pretendia construir uma identidade nacional integradora, capaz de unir as elites e as classes populares, a "brasilidade", diferente do período da "República Velha", onde predominavam os regionalismos desagregadores. Além disso, a miscigenação do povo e o clima tropical brasileiro, outrora apontados como aspectos negativos e indicadores do atraso nacional, deveriam ser valorizados como elementos da identidade nacional.

Em 1937, o governo Vargas criou o Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN). O órgão foi idealizado por intelectuais modernistas, como Mário de Andrade e Rodrigo Mello Franco de Andrade.

O SPHAN deveria atuar no tombamento e preservação dos grandes monumentos arquitetônicos e também no patrimônio imaterial, legado pela tradição oral das classes populares.

Um exemplo do esforço do SPHAN materializou-se na criação do Museu Imperial em Petrópolis-RJ, em 1940. O Museu, antiga casa de veraneio da família imperial nos tempos da Monarquia reúne artefatos como o cetro, o trono e a coroa de D. Pedro II preservando a memória do Império.

O presidente Getúlio Vargas apoiou a iniciativa e tirou proveito dela associando sua imagem a d. Pedro II, enquanto  estadistas que garantem unidade e estabilidade política.

Mas, em última,  instância a cultura na Era Vargas servia ao propósito do Novo Regime e a uma tentativa de legitimação do poder. A difusão da cultura e do nacionalismo via propaganda almejavam obter o apoio social a um governo autoritário e centralizador.

Atividades/Avaliação

1. O que o projeto governamental tem em vista é poupar à Nação o prejuízo irreparável do perecimento e da evasão do que há de mais precioso no seu patrimônio. Grande parte das obras de arte até mais valiosas e dos bens de maior interesse histórico, de que a coletividade brasileira era depositária, têm desaparecido ou se arruinado irremediavelmente. As obras de arte típicas e as relíquias da história de cada país não constituem o seu patrimônio privado, e sim um patrimônio comum de todos os povos.

ANDRADE, R. M. F. Defesa do patrimônio artístico e histórico. O Jornal, 30 out. 1936. In: ALVES FILHO, I. Brasil, 500 anos em documentos. Rio de Janeiro: Mauad, 1999 (adaptado).

A criação no Brasil do Serviço do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (SPHAN), em 1937, foi orientada por ideias como as descritas no texto, que visavam

A) submeter a memória e o patrimônio nacional ao controle dos órgãos públicos, de acordo com a tendência autoritária do Estado Novo.
B) transferir para a iniciativa privada a responsabilidade de preservação do patrimônio nacional, por meio de leis de incentivo fiscal.
C) definir os fatos e personagens históricos a serem cultuados pela sociedade brasileira, de acordo com o interesse público.
D) resguardar da destruição as obras representativas da cultura nacional, por meio de políticas públicas preservacionistas.
E) determinar as responsabilidades pela destruição do patrimônio nacional, de acordo com a legislação brasileira.

2. A criação do Museu Imperial em 1940, sob a tutela do governo de Getúlio Vargas, não foi um acidente. No momento de sua inauguração, em 1943, o museu teve seu valor consagrado pelo público e por um interesse político que visava ao
fortalecimento de determinado conceito de nação. No Museu Imperial, a questão da pátria não aparece vinculada a batalhas, delimitações de fronteiras, mas sim ao pulso forte, íntegro e centralizador de um chefe de Estado que "soube cumprir bem alto a sua missão no serviço da pátria".

SANTOS. Miriam Sepúlveda dos. Museu imperial: a construção do Império pela República. IN: ABREU. Regina & CHAGAS. Mário (orgs.). Memória e Patrimônio: ensaios contemporâneos. Rio de Janeiro: Lamparina. 2009. pp.130-131. (Adaptado)

As narrativas históricas reconstroem o passado de diversas maneiras, cabendo aos museus uma singularidade fundamental, a saber, a de constituir "provas" materiais dessas histórias.

A partir dessas considerações, a criação do Museu Imperial representava

A) uma tentativa de Vargas de se aproximar da memória de D. Pedro II, tido como grande estadista e amigo do povo, favorecendo a legitimação do Estado Novo.
B) um resgate de Vargas das tradições hierárquicas da aristocracia, na tentativa de construir um passado político honroso, fundado a partir de raízes europeias.
C) uma estratégia de reaproximação de Vargas com a elite paulista, por meio do resgate da memória da atuação política dessa elite junto ao Imperador no século XIX.
D) um incentivo de Vargas para que a população se aproximasse do universo da política, fortalecendo as práticas de cidadania e de exercício da democracia. 

[Lista de exercícios] Atividades sobre Memória e poder

Lista de exercícios com atividades de leitura e interpretação de textos sobre a relação entre a memória coletiva, patrimônio histórico e poder


1. Leia o texto a seguir depois responda as perguntas. 

"O Estado nacional surgiu, portanto, a partir da invenção de um conjunto de cidadãos que deveriam compartilhar uma língua e uma cultura, uma origem e um território. Para isso, foram necessárias políticas educacionais que difundissem, já entre as crianças, a ideia de pertencimento a uma nação. Os estudiosos modernos chamaram isso de introjeção ou doutrinação interior, que visava a imbuir o jovem, desde cedo, de sentimentos e conceitos que passavam a fazer parte de sua compreensão de mundo, como se tudo fosse dado pela própria natureza das coisas. Um sociólogo de nossa época,  o francês Pierre Bordieu, usou a palavra habitus para se referir a essa naturalização inconsciente que, no contexto dos Estados nacionais, depende de mecanismos de reprodução social, como a escola. Vários outros pensadores modernos, como Gilles Deleuze e Michel Foucault, ressaltaram o papel da escola na difusão e aceitação dos conceitos sociais. 

Os novos Estados nacionais tiveram como tarefa primeira inventar os cidadãos.  Em relação a isso, há uma frase famosa que vale a pena recordar. Logo após a unificação italiana,  em meados do século XIX, menos de 5% da população da Península Itálica falava ou entendia o italiano. O líder da unificação, Massimo D'Azeglio, constatou que "feita a Itália,  é preciso fazer os italianos". 

(FUNARI, P. P., PELEGRINI, S. C. A. Patrimônio histórico e cultural.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006, p. 16-7).

A) Qual o papel da escola no processo de construção da identidade nacional?

B) Apresente uma definição para o conceito de Estado Nacional. 

C) Explique o sentido da frase "feita a Itália, é preciso fazer os italianos".

2. Leia o trecho a seguir, depois responda as questões. 

"... a leitura do Times de 17 de março dava a impressão de que, num discurso proferido na véspera, o Grande Irmão previra que as coisas permaneceriam calmas no fronte do sul da Índia, mas que o norte da África em breve assistiria a uma ofensiva das forças eurasianas. Na verdade, porém, o alto-comando da Eurásia lançara uma ofensiva sobre o sul da Índia, deixando o norte da África em paz. Assim, era necessário reescrever um parágrafo do discurso do Grande Irmão, de forma a garantir que a previsão que ele havia feito estivesse de acordo com aquilo que realmente acontecera. Ou ainda: o Times de 19 de dezembro publicara as estimativas oficiais do volume a ser atingido na produção de uma série de bens de consumo no quarto trimestre de 1983, que ao mesmo tempo era o sexto trimestre do Nono Plano Trienal. A edição do Times daquele dia trazia a informação sobre o volume de produção efetivamente atingido no período, e os números estavam em franco desacordo com os prognósticos anunciados em dezembro. A tarefa de Winston era retificar os números originais, fazendo-os corresponder aos resultados de fato obtidos. Já a terceira mensagem fazia referência a um erro muito simples, cuja correção não demandaria mais que alguns minutos de trabalho. Em fevereiro último, o Ministério da Pujança fizera publicamente a promessa (no linguajar oficial: “assumira o compromisso categórico”) de não promover nenhum corte na ração de chocolate no decorrer de 1984. Na verdade, como Winston já sabia, no fim daquela semana a ração de chocolate seria reduzida de trinta para vinte gramas. Bastava substituir a promessa original pela advertência de que a ração de chocolate provavelmente sofreria uma redução em abril. Tão logo se desincumbiu das mensagens, Winston juntou com clipes as ditografias de suas correções às respectivas edições do Times e as introduziu no tubo pneumático. Em seguida, com um movimento que ele fez o possível para que parecesse inconsciente, amassou as mensagens originais e duas ou três anotações que ele próprio fizera e as atirou todas no buraco da memória para que fossem devoradas pelas chamas. Winston não sabia em detalhe o que acontecia no labirinto invisível a que os tubos pneumáticos conduziam, mas tinha uma visão geral da coisa. Depois de efetuadas todas as correções a que determinada edição do Times precisava ser submetida e uma vez procedida a inclusão de todas as emendas, a edição era reimpressa, o original era destruído e a cópia corrigida era arquivada no lugar da outra. Esse processo de alteração contínua valia não apenas para jornais como também para livros, periódicos, panfletos, cartazes, folhetos, filmes, trilhas sonoras, desenhos animados, fotos — enfim, para todo tipo de literatura ou documentação que pudesse vir a ter algum significado político ou ideológico".

ORWEL, George. 1984

A) Qual seria a finalidade do "processo de alteração contínua" descrito no texto?

B) Imagine que você vivesse num país com práticas semelhantes às citadas no texto. Como deveria ser a forma de governo deste lugar? Justifique sua resposta. 

C) "... amassou as mensagens originais e duas ou três anotações que ele próprio fizera e as atirou todas no buraco da memória para que fossem devoradas pelas chamas".

Podemos afirmar que os líderes desse país estavam preocupados com a memória coletiva? Justifique sua resposta.

3. A Unesco condenou a destruição da antiga capital assíria de Nimrod, no Iraque, pelo Estado Islâmico, com a agência da ONU considerando o ato como um crime de guerra. O grupo iniciou um processo de demolição em vários sítios arqueológicos em uma área reconhecida como um dos berços da civilização.

Unesco e especialistas condenam destruição de cidade assíria pelo Estado Islâmico. Disponivel em: http://oglobo.globo.com. Acesso em: 30 mar. 2015 (adaptado).

O tipo de atentado descrito no texto tem como consequência para as populações de países como o Iraque a desestruturação do(a)

A) homogeneidade cultural.
B) patrimônio histórico.
C) controle ocidental.
D) unidade étnica.
E) religião oficial.

4. Desde meados de 2015 que os noticiários virtuais têm estampados manchetes sobre as ações violentas do grupo jihadista Estado Islâmico (EI), na Síria e no Iraque. Recentemente, o EI explodiu um antigo templo, com cerca de 2 mil anos de idade, e colunas romanas com grande valor arqueológico em Palmira, na Síria.


O atentado mencionado no texto afeta qual aspecto da vida das populações do Oriente Médio? 

a) homogeneidade cultural.
b) patrimônio histórico.
c) controle ocidental.
d) unidade étnica.
e) religião oficial.

6. Leia o texto a seguir, depois responda as perguntas.

"Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de tudo, o meu voto é sim." 

(Voto do então deputado federal Jair Bolsonaro a favor do Impeachment da presidente Dilma Rousseff, 2016).

A) No voto do deputado pela abertura do impeachment há uma referência à memória. Pesquise e explique qual foi a intenção do parlamentar em seu discurso.

B) Leia o Preâmbulo e o artigo 5º,  inciso III, da Constituição Federal de 1988. Em que medida o discurso do deputado federal contraria os princípios estabelecidos pela Carta Magna de nosso país? 

05 janeiro 2026

A história da cidadania no Brasil

A noção de cidadania moderna foi construída pela Revolução Francesa (1789), designando os indivíduos que fazem parte da sociedade e são detentores de direitos. Entretanto, a palavra cidadania tem origem mais remota, ela surgiu no tempo dos antigos romanos. A expressão latina ciuitas, usual naquela época,  tinha o sentido de cidade e de Estado.


Em Roma Antiga, os cidadãos eram os homens livres, mas nem todos tinham os mesmos direitos, pois os patrícios (oligarquia romana) tinham o monopólio dos cargos públicos, excluindo da participação política os plebeus, as mulheres e os escravos. O senado, por exemplo, era um dos órgãos mais importantes da organização política romana e era ocupado exclusivamente por homens patrícios.

A situação de exclusão só foi revertida com muita luta e levou bastante tempo para as massas populares conquistarem direitos, entre eles o fim da escravização por dívidas, o de votar e eleger seus representantes políticos para o Tribuno da Plebe. A cultura política greco-romana antiga difundiu-se por toda a Europa e, posteriormente,  influenciou todo o mundo Ocidental. Vejamos um pouco de trajetória da cidadania na História do Brasil.

Período colonial 

Como sabemos,  a colonização portuguesa foii terrível para os povos indígenas e africanos. Os índios foram expulsos de suas terras, caçados e dizimados pelas doenças trazidas pelos europeus.
Os africanos submetidos a escravidão não tiveram melhor sorte, além de perderem a liberdade eram forçados a abandonar suas crenças, valores e identidade.

No Brasil Colônia existiam as Câmaras Municipais, instaladas nas vilas e cidades coloniais. Eram órgãos administrativos que "exprimia essencialmente os interesses dos grandes senhores locais". (CÂNEDO, 2012. p  520).

O poder, a nível local, era controlado por vereadores e juizes eleitos pelos "homens bons",  donos de terras e de escravos. As mulheres, homens livres pobres, índios e escravos africanos não tinham direitos. 

As decisões das Câmaras Municipais atendiam apenas aos interesses dos senhores locais e da administração colonial portuguesa, sem levar em consideração as necessidades dos outros grupos sociais que viviam nos espaços urbanos.

Período imperial

Antes da independência houve um esforço das elites políticas e econômicas do Brasil para assegurar a manutenção da ordem social vigente. O Brasil deixaria de ser Colônia e passaria à condição de nação livre sem alterar os alicerces socioeconômicos baseados no latifúndio e no trabalho escravo.

A clássica pintura de Pedro Américo,  "Independência ou Morte" (1888), deixa evidente a falta de participação popular no processo de independência, ao dar centralidade a d. Pedro e sua guarda pessoal. Há um camponês na composição artística, mas ele ocupa uma posição marginal, alheia ao acontecimento político. 

No Primeiro Reinado,  a Constituição de 1824 fixou o voto censitário exigindo a renda mínima para habilitar eleitores. Assim, "o verbo "votar" e a prática da cidadania são do gênero masculino e da cor branca, as mulheres estavam ausentes do texto, assim como os escravos e os indígenas" ( CÂNEDO, 2012, p. 526).

As eleições no período imperial foram marcadas por fraudes,  eleitores fantasmas e violência. Os proprietários rurais poderosos tinham "capangas" a seu serviço e na época das eleições eles eram usados para atacar os opositores de seus candidatos.

A manutenção do regime escravocrata criava um cenário social dantesco. Os escravos eram forçados a produzir as riquezas que eram apropriadas por uma elite cruel e mesquinha. Os escravos resistiam, muitos fugiam das fazendas e formavam quilombos para tentar recomeçar a vida. Rebeliões de escravos e de populares que eclodiram no período foram duramente reprimidas pelas autoridades do Império.

Ao final do período imperial, em 1888, foi abolida a escravidão. Apesar do avanço da cidadania, com a consolidação do direito civil da liberdade, os afro-americanos permaneceram à margem da sociedade, sem garantias ou direitos que lhes permitissem exercer a cidadania, de fato.

Período Republicano

A passagem da Monarquia para a República ocorreu sem conflitos, não houve resistência e nem turbulências sociais.

A República proclamada em 15 de novembro de 1889 ocorreu pela condução dos militares com o apoio da elite agrária. Novamente o povo havia ficado ausente do processo de mudança na forma de governo. No momento da proclamação da república, o povo assistiu a cena bestializado, alheio aos acontecimentos.
"Proclamação da república". (1893). Benedito Calixto

O novo regime aboliu o voto censitário, mas exigia que o eleitor fosse alfabetizado e maior de 21 anos de idade. No início do século XX mais de 50% da população adulta era analfabeta. As escolas eram poucas e caras, só os grupos mais favorecidos tinham acesso à Educação. Os direitos sociais eram, na Primeira República, inexistentes.

Além dos analfabetos,  foram excluídos do direito de votar as mulheres, doentes mentais, praças de pré, religiosos de congregações e ordens monástica e os mendigos.

O processo eleitoral continuava violento e sem lisura. Os "coronéis" praticavam o voto de cabresto e garantiam a vitória de seus candidatos. As fraudes eram a tônica das eleições, com a adulteração das atas, alistamento de eleitores inexistentes etc. 

Tal situação só começou a ser revertida a partir de 1932, com a criação da Justiça Eleitoral, órgão que passou a organizar e a fiscalizar as eleições brasileiras. O voto passou a ser secreto, garantido aos eleitores o direito do sigilo de escolha.

O voto feminino, enfim, foi assegurado em 1932 e foi incorporado à Constituição de 1934. Nas eleições de 1933, pela primeira vez o Brasil tinha uma mulher eleita - Carlota Pereira de Queiroz.



Além da restrição dos direitos políticos do povo, as questões sociais da república, como a desigualdade, a falta de acesso à terra e a precariedade do trabalho, eram tratadas pela polícia, isto é,  com forte repressão contra movimentos sociais. Praticamente não havia diálogo entre o povo e o Estado, tampouco preocupação dos dirigentes em atender as reivindicações populares. 

Os direitos trabalhistas

Após 1930, Getúlio Vargas assumiu o poder e o país passou por transformações sociais e econômicas importantes. 

A difusão das ideias anarquistas e socialistas nos movimentos operários representavam uma ameaça à ordem vigente.

Vargas passou a exercer maior controle sobre as atividades sindicais, colocou a Aliança Nacional Libertadora (ANL) na ilegalidade e aprovou medidas que favoreceram os trabalhadores urbanos.

Dentre elas, podemos citar a criação do décimo terceiro salário, descanso remunerado, regulamentação da jornada de trabalho dentre outras.

Todas essas medidas favoreceram a associação do presidente Vargas à imagem do "pai dos pobres".
Comemoração do dia do trabalho. Getúlio Vargas cumprimenta a multidão.


A Constituição cidadã (1988)

Entre 1964 a 1985 o Brasil esteve sobre o regime militar ditatorial. Nesse contexto, diversos direitos foram suspensos, restringindo muito a cidadania.
A falta de liberdade de imprensa e o fim da eleição direta para presidente da República foram algumas das medidas impostas pela ditadura que feriam a democracia.

Em 1983 surgiu na sociedade civil um movimento - chamado "Diretas Já" - reivindicando abertura política, o fim da ditadura e eleição direta para escolher o presidente da República. Artistas, intelectuais, estudantes e lideranças políticas diversas mobilizaram milhões de pessoas nas grandes capitais, como Rio de Janeiro e São Paulo, em comícios e shows.



No ano de 1988, uma nova Constituição foi promulgada pelo Congresso Nacional, ela restabeleceu a Democracia, pondo um fim na ditadura. Em 1989, houve eleições diretas para presidente e o vencedor foi Fernando Collor de Mello.


A Constituição de 1988 assegurou a todos garantias fundamentais, como o direito de ir e vir,  à liberdade de expressão e proibiu a tortura. O documento também aprovou os direitos sociais, como saúde, educação, segurança, trabalho, moradia etc. O objetivo da Constituição é reduzir as desigualdades  e promover a justiça social. Sem superar tais obstáculos - o avanço da desigualdade e a exclusão social - a cidadania plena continuará restrita no país. 

Por tudo isso, a Constituição é um documento importantíssimo para a promoção da cidadania, da democracia, da inclusão e do bem-estar social. Cabe a todos nós, cidadãs e cidadãos, conhecê-la e defendê-la para que suas ideias e princípios se concretizem e alcancem a todos.



Bibliografia

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.

PINSKY, Carla Bassanesi, PINSKY, Jaime (orgs.). História da cidadania. São Paulo: Contexto, 2012. 


Avaliação 

1. ENEM (2015).

A população negra teve que enfrentar sozinha o desafio da ascensão social, e frequentemente procurou fazê-lo por rotas originais, como o esporte, a música e a dança. Esporte, sobretudo o futebol, música, sobretudo o samba, e dança, sobretudo o carnaval, foram os principais canais de ascensão social dos negros até recentemente. A libertação dos escravos não trouxe consigo a igualdade efetiva. Essa igualdade era afirmada nas leis, mas negada na prática. Ainda hoje, apesar das leis, aos privilégios e arrogâncias de poucos correspondem o desfavorecimento e a humilhação de muitos.


CARVALHO, J. M. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006 (adaptado).


Em relação ao argumento de que no Brasil existe uma democracia racial, o autor demonstra que


a) essa ideologia equipara a nação a outros países modernos.
b) esse modelo de democracia foi possibilitado pela miscigenação.
c) essa peculiaridade nacional garantiu mobilidade social aos negros.
d) esse mito camuflou formas de exclusão em relação aos afrodescendentes.
e) essa dinâmica política depende da participação ativa de todas as etnias.

2. ENEM (2016).

A teoria da democracia participativa é construída em torno a afirmação Central de que os indivíduos e suas instituições não podem ser considerados isoladamente. A existencia de constituições representativas em nível nacional não basta pra democracia, pois o máximo de participação de todas as pessoas, a socialização ou "treinamento social" precisa correr em outras esferas, de modo que as atitudes e as qualidades psicológicas necessárias possam se desenvolver. Esse desenvolvimento ocorre por meio do próprio processo de participação. A principal função da participação na teoria democrática participativa é portanto educativa, nessa teoria, a associação entre participação é educação tem como fundamento a:

a) Ascensão das camadas populares.
b) organização do sistema partidário.
c) eficiência da gestão pública.
d) ampliação da cidadania ativa.
e) legitimidade do processo legislativo.

3. ENEM (2009).

Segundo Aristóteles, “na cidade com o melhor conjunto de normas e naquela dotada de homens absolutamente justos, os cidadãos não devem viver uma vida de trabalho trivial ou de negócios — esses tipos de vida são desprezíveis e incompatíveis com as qualidades morais —, tampouco devem ser agricultores os aspirantes à cidadania, pois o lazer é indispensável ao desenvolvimento das qualidades morais e à prática das atividades políticas".

VAN ACKER, T. Grécia. A vida cotidiana na cidade-Estado. São Paulo: Atual, 1994.

O trecho, retirado da obra Política, de Aristóteles, permite compreender que a cidadania:

a) possui uma dimensão histórica que deve ser criticada, pois é condenável que os políticos de qualquer época fiquem entregues à ociosidade, enquanto o resto dos cidadãos tem de trabalhar. 

b) era entendida como uma dignidade própria dos grupos sociais superiores, fruto de uma concepção política profundamente hierarquizada da sociedade.

c) estava vinculada, na Grécia Antiga, a uma percepção política democrática, que levava todos os habitantes da pólis a participarem da vida cívica.

d) tinha profundas conexões com a justiça, razão pela qual o tempo livre dos cidadãos deveria ser dedicado às atividades vinculadas aos tribunais.

e) vivida pelos atenienses era, de fato, restrita àqueles que se dedicavam à política e que tinham tempo para resolver os problemas da cidade.

4. ENEM, 2022



Gabarito 

1. d

2. d

3.  b

4.  a

06 outubro 2025

Conteúdo para o itinerário de Humanidades e Ciências Sociais: O que é identidade?

 O que é Identidade?


O conceito de identidade é bastante utilizado na área de Ciências Humanas e é recorrente no trabalho de antropólogos, psicólogos, historiadores e pesquisadores da área interdisciplinar de Estudos Culturais.

A noção de identidade é muito abrangente e se desdobra em diversos conceitos, como identidade étnica, identidade nacional, identidade social entre outros.

A identidade, basicamente, constitui um repertório de representações que caracterizam os indivíduos e definem o seu comportamento. No Brasil, por exemplo, temos dentro do mesmo território grupos identitários muito distintos, os quais estão conectados por seus projetos em comum. Vejamos o caso do movimento indígena brasileiro. 
Índios reunidos em Brasília (DF).

Pense nos povos indígenas, o que os une? Eles possuem um passado em comum? Compartilham os mesmos valores? Têm as mesmas aspirações e projetos para o futuro?

Se as respostas forem sim, isso significa que o grupo dos índios que vivem no Brasil possuem uma identidade semelhante, eles podem ter suas diferenças culturais, mas há um conjunto de características que os aproxima e marca sua identidade social e cultural.

Você já ouviu alguém dizer que o Brasil é a "terra do futebol"? Essas máximas são exemplos de identidade que podem ou não corresponder à realidade. Para muita gente, aqueles que gostam de futebol, o país pode mesmo ser a terra do jogo criado pelos britânicos. 



Para aqueles que não acompanham e nem se interessam pelo esporte o rótulo de "terra do futebol" não faz o menor sentido. É preciso tomar cuidado com as generalizações, pois as diferenças regionais, étnicas e sociais não comportam simplificações. Há múltiplas identidades convivendo num mesmo território que precisam ser consideradas e levadas em consideração nos estudos de Ciências Humanas e Sociais. 

Nós, estudantes do ensino médio, possuímos identidade? Quem somos? O que pensamos a respeito do nosso futuro? Afirmações genéricas, como "terra do samba", "país tropical" e "terra do futebol" são capazes de explicar toda a realidade brasileira? Elas constituem de fato toda a identidade nacional? 


Atividade para reflexão




1. Quais aspectos da identidade brasileira as músicas destacam?_____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

2. Você concorda com as afirmações feitas nas canções? Justifique.
_____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

3. Faça uma ilustração representando as músicas. 


20 setembro 2025

Patrimônio histórico, memória e a construção da identidade nacional

A construção da identidade nacional no Brasil

No dia 7 de setembro de 1822 o Brasil rompeu o vínculo de colônia em relação a Portugal. Assim, nascia um novo Estado e uma nova nação, a qual precisava ser devidamente construída com uma forma de governo, constituição, leis, um povo e uma História em comum.

A História, nesse sentido, colaborava para criar uma identidade comum às pessoas que viviam naquela comunidade nacional. O passado, com seus símbolos, mitos e heróis, contaria a história da nação e construiria a identidade nacional do povo.

Os responsáveis por esse processo de construção do Estado e da identidade nacionais foram homens da elite econômica, como fazendeiros, senhores de engenho, criadores de gado, produtores de café entre outros. O projeto político desses homens era bastante conservador, queriam preservar a integridade territorial e as bases do sistema econômico agroexportador e escravocrata. 

Após a independência do Brasil a literatura assumiu a importante função de colaborar para a construção da identidade brasileira. Nesse sentido, parte da produção literária se esforçou para criar um sentimento de pertencimento a uma comunidade nacional entre um povo muito heterogêneo. A literatura reproduzia valores, costumes e símbolos que representariam todo o povo brasileiro, diferenciando-o das demais nacionalidades.

O Romantismo exerceu forte influência sobre a produção literária brasileira. Os autores nacionais elegeram a natureza e os índios como símbolos da peculiaridade brasileira. Assim, surgia o Romantismo Indianista no Brasil. Os índios, habitantes originais da terra, eram a ponte com o passado e a origem da nacionalidade. Entre os autores indianistas destacamos Antônio Gonçalves Dias, autor de Primeiros Contos (1846) e Os timbiras (1857).

No romance indianista os índios são retratados de maneira idealizada, são figuras heroicas e valentes. Os europeus, especialmente os portugueses, são vistos como portadores da civilização e da fé, também contribuindo para a construção da nacionalidade. O encontro entre os índios e os portugueses era elogiado, pois considerava-se que a mestiçagem cultural era a característica original da nacionalidade brasileira. 

Na segunda geração de autores românticos tivemos nomes, como José de Alencar (O guaraniIracema) e Joaquim Manoel de Macedo (A moreninha), os quais, além de romancistas, exerceram cargos políticos e participaram dos debates sobre as questões nacionais, entre elas a escravidão. Alencar defendeu a escravidão, Macedo considerava que a prática iria corromper os valores civilizados.

A última geração dos românticos teve como expoente o poeta Castro Alves (Navio negreiro, 1868), ardoroso defensor da abolição da escravatura. 

Para reforçar a identidade nacional a História era uma ferramenta essencial. Por isso, em 1838 foi fundado o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) o qual era apoiado pelo governo e pelo imperador. Os membros do Instituto eram militares, juristas, políticos, homens brancos da elite do país. 

O patrocínio do Estado brasileiro ao IHGB converteu-se, no campo geográfico, na realização de expedições para explorar e descrever o território nacional, suas riquezas e potenciais, mapear zonas fronteiriças com outros países e realizar estudos etnográficos ligados à questão indígena.

O papel do IHGB e a construção da identidade nacional 

"... preocupação central [dos membros do IHGB] em elaborar uma narrativa sobre o passado nacional converteu-se no que ficou conhecido como História oficial. Uma versão do passado que unificasse a população em uma História que exaltava o Estado, a ordem estabelecida e apresentava um elenco de heróis nacionais, que deveriam encarnar os valores que seriam a marca da brasilidade ." 
(DOLHNIKOFF, 2017,p. 74).

O IHGB deveria se encarregar de produzir a História oficial do país, com a qual todos os brasileiros deveriam se identificar. Nesse sentido, um dos nomes ligados ao IHGB que podemos destacar é o do historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, o qual publicou, em 1854, a obra História Geral do Brasil. Nela, o autor elogiou a colonização portuguesa, atribuindo a tal ação o caráter civilizador e destaca que o sentimento de brasilidade teria surgido no século XVII, quando os colonos enfrentaram e expulsaram os holandeses de Pernambuco. 

No campo das artes plásticas, a pintura também colaborou no sentido de glorificar o passado e promover o culto aos heróis. O melhor exemplo disso pode ser observado na tela "Independência ou Morte" de Pedro Américo. 

A obra foi produzida entre 1886 a 1889, teve apoio financeiro do governo, e tem as seguintes dimensões 4,15 X por 7,60 metros. Atualmente, a pintura encontra-se no Museu do Ipiranga (Museu Paulista da Universidade de São Paulo), prédio construído entre 1885 a 1890 com o objetivo de se tornar um monumento, guardião da memória da independência nacional. 


Enfim, após a independência do Brasil a elite do país esforçou-se para criar e difundir um sentimento de brasilidade. O esforço de construção da identidade nacional se deu através da publicação de obras literárias, estudos de história, expedições geográficas e construção de obras e monumentos que ocorreram no século XIX com o objetivo de preservar a memória coletiva.


Avaliação

1. O texto abaixo se refere à construção da identidade nacional no Brasil no decorrer do século XIX, sobretudo a partir do Segundo Reinado. Leia o trecho e, em seguida, responda à questão:

“Por oposição ao negro, que lembrava a escravidão, o indígena permitia identificar uma origem mítica e
unificadora. (...). A natureza brasileira também cumpriu função paralela. Se não tínhamos castelos medievais, templos da Antiguidade ou batalhas heroicas para lembrar, possuíamos o maior dos rios, a mais bela vegetação.
(...). Por mais que tenha partido de d. Pedro I e de Bonifácio a tentativa de elaborar (...) uma ritualística local, foi com d. Pedro II e seu longo reinado que se tornaram visíveis a originalidade do protocolo e o projeto romântico de representação política do Estado” (SCHWARCZ, Lilia. As Barbas do Imperador, p.140).

Com base no trecho acima e em seus conhecimentos, é CORRETO afirmar que a identidade nacional no século XIX foi construída:

a) Tendo como base as referências europeias existentes nas províncias que formavam o Brasil antes da Independência do país.
b) A partir de um processo de longa duração, que se valeu do uso de aspectos naturais e de elementos simbólicos locais que pretendiam representar a Nação.
c) De forma consensual e harmônica, considerando a heterogeneidade dos diferentes povos que formavam o país.
d) Através da valorização da herança africana e dos costumes da África, continente ao qual o país estava diretamente ligado pelo Atlântico Sul.
e) Com o objetivo de reproduzir no país recém-independente as mesmas características existentes em Portugal. 

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